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Vida artificial: o homem virou Deus?

quinta-feira, 27 de maio de 2010

Recentemente mais uma descoberta científica movimentou o mundo: o homem cria a primeira célula bacteriana viva. Não é bem a primeira, mas é a que apresentou maiores sucessos de vida. Isso faz relembrar o alvoroço que se deu em torno da fecundação "in vitro", da clonagem, das células-tronco. Além do mais, remete-nos ao velho debate: o homem está criando a vida? O homem está brincando de Deus?

A notícia dessa nova descoberta veio em boa hora. O número de doenças graves decorrentes de deformações genéticas em células humanas alarma a todos. A esperança de cura para doenças ou anomalias como câncer, paralisias, Mal de Alzheimer, Síndrome de Down e tantas outras está depositada nesses avanços da ciência.


Todavia, essas descobertas científicas colidem com a visão de certos segmentos da sociedade, sobretudo com a das instituições religiosas. O manuseio do homem em elementos naturais da vida pode ser uma forma de desafiar Deus? Pode ser uma forma de burlar o inevitável fim de todos nós, que é a morte? Será que a ciência é contrária aos princípios religiosos?


Quando o assunto é ciência e religião, acredita-se comumente que as religiões são adversas aos avanços científicos. Como água e óleo, essas duas formas de conhecimento e representação das manifestações humanas não se misturam. Porém, isso é assim não pela impossibilidade de encontros da ciência e da religião, mas pelo desconhecimento e ignorância.


Historicamente, as religiões contribuíram muito para aperfeiçoamento da ciência. A religião Católica, por exemplo, possibilitou a criação das primeiras universidades, abrigou as grandes obras da arquitetura e das artes plásticas, forneceu base para o direito moderno através do direito canônico, deu preceitos para a criação de direitos humanos, promoveu a criação de conceitos básicos da economia moderna.


É claro que essa mesma religião foi responsável por retrocessos científicos, com a burla a questões de avanços da astronomia no passado, e de se opor aos estudos de célula-tronco no presente. Mas essas duas oposições têm motivos distintos. No passado, o motivo era que a visão religiosa e política não se distinguiam. No presente, o motivo é temor às ações humanas sem critérios morais.


Nesse ponto vale lembrar que o uso dos produtos radiativos foi responsável pela criação das bombas atômicas. Ou seja, um esforço científico com o objetivo de melhorar a vida das pessoas foi transformado no instrumento bélico mais destruidor da história. Isso quer dizer que as descobertas científicas não podem prescindir de aspectos morais, este é o recado das religiões.


Com isso, nota-se que o embate entre ciência e religião decorre de visões extremadas, sobretudo. A ciência deve ser livre e avançar porque traz benefícios à humanidade. Por sua vez, a religião precisa ser considerada, pois aspectos morais podem melhorar as descobertas da ciência, bem como o uso delas. Logo, ciência e religião não são contrárias.


Assim, na medida em que a ciência avança em questões de recriação da vida não quer dizer que o homem esteja brincando de Deus, de criador da vida. O que a ciência faz nesse campo são descobertas ou recriações sobre as formas de reprodução da vida. O homem combina substâncias pré-existentes para reproduzir formas de vida, isto é, ele não tira a vida do vazio.


O homem não está criando vida nova, mas compreendendo melhor as formas como a vida pode surgir. Embora se constitua num avanço formidável, a primeira célula bacteriana viva sintética é apenas uma precária forma de reprodução observada na natureza. Da mesma forma que a clonagem não passa de uma reprodução assexuada.


Os avanços da ciência não são desafios a Deus. Entretanto, visões extremistas de homens da ciência e segmentos da sociedade argumentam que essas descobertas provam a inexistência de Deus. Essas visões são tão prejudiciais ao avanço da ciência quanto as visões ignorantes de frações das religiões fechadas ao progresso. É sempre o radicalismo que leva aos maus usos das descobertas científicas e dos preceitos religiosos.


O homem não precisar querer ser Deus para progredir na ciência. Destarte, considerações religiosas e morais sobre as descobertas científicas e as aplicações delas, em vez de dificultarem, podem ajudar na busca de meios para melhorar as condições de vida humana.


Este artigo foi escrito por um leitor do Globo (Alexandre Pereira Rocha)

2 comentários

jgagliardi disse...

Não acredito que seja desafio a Deus as experiências cientificias, acontece que assim como tudo na vida, algumas pessoas utilizam essas descobertas parao o mal.

Lucas Queiroz disse...

Concordo contido @jgagliardi, Albert Einstein que o diga (Bomba atômica).

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Rafael Mafagafo já havia dito : A verdade é que eu acho legal o pessoal acessar o site e não deixar um recadinho… eh massa…
eh a mesma coisa que você cagar e não puxar a descarga… porque querendo ou não você usou aquilo, pode ser num momento de merda, mas usou certo? não custa deixar um recadinho falando… legal…

 
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